sexta-feira, setembro 03, 2004


O puto

Quatro anitos marotos, caracol loiro rebelde, sorriso do tamanho da vida e uma absoluta certeza que é o centro do mundo.

De há muito que o Cristo em casa da tia-avó o fascinava. Uma estatueta de madeira, do século XVII, que ocupava lugar de relevo na sala e na qual nunca o deixavam tocar, fruto proibido e muito apetecido. Naquele dia decidiu-se: seria dele e de mais ninguém. Delineou a sua estratégia com a astúcia de um bebé das forças especiais. Para trás ficou o blusão, que, apressado, voltou a buscar quando a família já se despedia. Bem enrolado nele vinha o pobre Cristo.

Depois foi só esconder a obra por entre os brinquedos e impar de orgulho proprietário. Entretanto, a coisa foi descoberta e a estatueta devolvida, sem conhecimento do presumível - e presumido - criminoso.

Em ulterior visita à tia-avó, o puto depara-se, naturalmente, com o Cristo in situ. E comenta, com genial à vontade e a candura de um vigário: "Sabem, tenho um boneco igual a este no meu quarto. Só que o meu é mais esperto, conseguiu fugir da cruz".

De pequenino se traça o destino. É certamente um futuro político.